Select Page

Grande parte da natureza humana é a mulher que constrói (3)

Grande parte da natureza humana é a mulher que constrói (3)

A saída para as bancas da edição 125 do Jornal do Ave coincide com o Dia da Mulher. Num mundo que ainda é marcado pela desigualdade entre homens e mulheres,  não podíamos deixar de assinalar a efeméride. O JA homenageia a Mulher com três histórias de sucesso, profissionalismo e abnegação no feminino.

“Choca-me ainda ver a forma como a mulher é tratada em certas sociedades”

Passa os dias a dedicar a vida aos outros e quando chega a casa veste a pele de uma outra mulher, dedicada à família, que tantas vezes padece de “graves prejuízos”, fruto da missão que aceitou. Celina Maria Viana de Oliveira é adjunta de comando dos Bombeiros Voluntários de Famalicão desde 2010. No currículo acresce ainda o curso de Direito, pela Universidade do Minho, e o de docente de língua francesa. Não planeou nada do que a vida lhe deu, mas sente que lhe foram “reconhecidas competências e capacidades de liderança” que lhe valeram “responsabilidades cada vez mais crescentes”. Neste aspeto, a bombeira não esquece que a sua corporação “foi uma das pioneiras na integração de mulheres”. Mas isso obrigou-a a “ultrapassar alguns obstáculos, nomeadamente na aceitação por parte de alguns (felizmente poucos) elementos do sexo masculino, em ter um elemento feminino no comando”. “Sinto-me feliz por pertencer a um grupo de mulheres que se conseguiu afirmar num mundo masculino”, frisou a adjunta de comando.
Celina considera que “homens e mulheres poderão ser igualmente capazes e competentes na exata medida em que as suas diferenças físicas o permitam”. “Em vários setores, as mulheres tiveram de lutar para verem reconhecidas as suas capacidades e competências e deram mostras que, efetivamente, se lhe forem dadas oportunidades, poderão desempenhar tais cargos de forma tão, ou mais, competente que os homens. E também não duvido do inverso”, asseverou.
Conhecida como “a mulher dos sete instrumentos”, foi, “desde muito cedo, acumulando várias funções e atividades” e talvez por isso, quando se olha ao espelho, Celina veja uma mulher “simples e meiga, mas determinada e audaz”.
Defende que a sociedade “precisa da mulher”, e, apesar das conquistas femininas no que diz respeito à igualdade, acha que “há um longo caminho a percorrer, em todo o mundo”. “Choca-me ainda ver a forma como a mulher é tratada em certas sociedades”, alertou.
Celina considera que as mulheres portuguesas precisam de “mais oportunidades, mas sobretudo mais audácia”. “Uma sociedade moderna só será verdadeiramente completa e justa quando homens e mulheres o reconhecerem e passarem a convergir esforços em prol de um mundo mais justo e igualitário”, apontou.
Apesar de reconhecer a importância dos factos, Celina não vê necessidade “de comemorar o Dia Internacional da Mulher de forma diferente”, porque considera que “recordar as lutas levadas a cabo pelas mulheres ao longo da história é importante e deve ser feito diariamente”. “Acharmos que deve existir um Dia da Mulher para nos afirmarmos enquanto tal, ou para refletir o papel da mulher na sociedade, não quererá significar que esse papel, afinal, é esquecido nos restantes dias do ano?”, questionou a bombeira.

 

Entrevista Completa

JA: Nota biográfica 

CO: Celina Maria Viana de Oliveira, mais conhecida por Céline, pois nasci em França na região de Bourgogne e aí fui registada Céline Marie.
O Direito e a língua francesa são a minha formação de base. Sou advogada. Licenciei-me em Direito pela Universidade do Minho (concluí em 2001 e realizei o estágio da Ordem dos Advogados que concluí em 2003). Sou ainda docente de língua francesa.
Em 1990 ingressei nos Bombeiros Voluntários de Famalicão, na altura como majorette. Ao longo dos anos, foram-me sendo reconhecidas capacidades de liderança e como tal foram-me sendo atribuídas responsabilidades cada vez mais crescentes. Em 2006 fui convidada pelo então Comandante Vítor Azevedo para assessorar juridicamente o Comando dos Bombeiros Voluntários de Famalicão, e fui então promovida a “Adjunto de Comando Equiparado”. Fruto de alterações legislativas passei mais tarde para a categoria de “Oficial Bombeiro de 2.ª”. Em 2010, fui convidada pelo Dr. Francisco Sampaio para fazer parte, como Adjunto de Comando, da equipa que ele viria a liderar.

JA: Alguma vez se sentiu prejudicada no exercício das suas funções por ser mulher?
CO: Não. Embora numa primeira fase não tivesse sido fácil combater alguns “À Priori”. Tive de ultrapassar alguns obstáculos, nomeadamente na aceitação por parte de alguns (felizmente poucos) elementos do sexo masculino, em ter um elemento no comando mulher. O mundo dos Bombeiros foi durante décadas um mundo de homens. O Corpo de Bombeiros Voluntários de Famalicão foi uma das corporações pioneiras na integração de mulheres, existem mulheres na nossa Corporação há quase três décadas.

JA: Foi difícil chegar onde conseguiu chegar a nível profissional?
CO: Nunca aspirei chegar ao Comando de um Corpo de Bombeiros. Não fiz a carreira de Bombeiro, na medida em que não fiz a habitual recruta para ingressar como Bombeiro de 3.ª e posterior progressão na carreira. Ingressei já num posto de Chefia. Não posso rotular de difícil ou de fácil a minha ascensão, pois, na realidade nunca foi algo que eu ambicionasse. Simplesmente foi a conjugação de uma série de factores. Durante vários anos fui colaborando com o Comando e com a Direção dos Bombeiros Voluntários de Famalicão de forma leal e afincada. O reconhecimento das minhas competências e capacidades de liderança culminaram com os convites que me foram endereçados.

JA: Considera que há cargos/profissões que são mais bem executadas por mulheres/homens?
CO: Homens e mulheres poderão ser igualmente capazes e competentes na exata medida em que as suas diferenças físicas o permitam. Essa é a realidade no mundo actual. Embora continuem a existir sectores de actividades em que continua a existir uma supremacia de género, o certo é que há cada vez mais mulheres a ocupar cargos ou profissões tradicionalmente masculinos. Em vários sectores, as mulheres tiveram de lutar para verem reconhecidas as suas capacidades e competência e deram mostras que, efectivamente, se lhe forem dadas oportunidades, poderão desempenhar tais cargos de forma tão, ou mais, competente que os homens. E também não duvido do inverso.

JA: Alguma vez sentiu pressão para conseguir dar a mesma atenção à vida profissional e à vida familiar?
CO: Sim, diariamente! Desde muito nova que me apelidam “mulher dos sete instrumentos”! Desde muito cedo fui acumulando várias funções e actividades. Já faz parte do meu ser viver em constante pressão…

JA: Como se descreve enquanto mulher?
CO: Simples e meiga, mas determinada e audaz.

JA:  O que sente por ser uma mulher de relevo no seu concelho?
CO: Há cada vez mais mulheres a ocupar cargos de chefias, não só no mundo dos bombeiros como em diversos quadrantes da sociedade, tais como nas forças armadas, na política, nos quadros superiores das empresas. Sinto-me feliz por pertencer a um grupo de mulheres que se conseguiu afirmar num mundo masculino.

JA: Como vê o contributo que dá à sociedade?
CO: Ser Bombeiro Voluntário é uma constante e altruísta entrega ao próximo, muitas das vezes com graves prejuízos para si e para os seus…nem sempre a sociedade o reconhece.

JA: O que acha do Dia Internacional da Mulher? Como vive esta data?
CO: Tenho uma opinião muito particular nesta matéria. Penso que a sociedade deve, de facto, valorizar a mulher e reconhecer o papel que esta desempenha ao nível social, profissional e familiar. No entanto, não vejo, da minha parte, a necessidade de comemorar este dia de forma diferente. Recordar as lutas levadas a cabo pelas mulheres ao longo da história é importante e deve ser feito diariamente…o que deveria acontecer para tantas outras conquistas. Acharmos que deve existir um “Dia Internacional da Mulher” para nos afirmarmos enquanto tal, ou para reflectir o papel da mulher na sociedade, não quererá significar que esse papel, afinal, é esquecido nos restantes dias do ano?

JA: Como vê o papel da mulher na sociedade atual?
CO: A sociedade está em constante mudança e precisa da mulher… ao longo dos tempos a mulher foi conseguindo ultrapassar diversos preconceitos e tem vindo a ocupar lugares de destaque na sociedade, lutando para se afirmar. Mas há ainda um longo caminho a percorrer, em todo o mundo… Choca-me ainda ver a forma como a mulher é tratada em certas sociedades. A mulher é por natureza versátil. O homem e a mulher completam-se. Uma sociedade moderna só será verdadeiramente completa e justa quando homens e mulheres o reconhecerem e passarem a convergir esforços em prol de um mundo mais justo e igualitário.

JA: O que falta às mulheres portuguesas?
CO: Mais oportunidades, mas sobretudo mais audácia…

Videos

Loading...

Siga-nos

1ª pagina edição Papel

Este site utiliza cookies para lhe oferecer uma experiência mais personalizada. Ao navegar está a permitir a sua utilização