A história de um batalhão contada por 107 soldados

É mais um a juntar à extensa bibliografia que existe sobre a vivência dos militares na Guerra do Ultramar, mas pretende assumir-se como um “documento histórico” que, pela forma como foi elaborado, conte, “preto no branco”, a vivência de um batalhão que esteve na Angola. “Uma Vivência, Norte de Angola, B. Caç. 3838”, escrito por Vasco d’Orey, é uma história contada por 107 homens que fizeram parte do Batalhão de Caçadores 3838.

Foi com o objetivo de eternizar as histórias – e estórias – vividas pelo Batalhão de Caçadores 3838, em Angola, na Guerra de Ultramar, que Vasco d’Orey decidiu, depois de desafiado pelo camarada Carlos Santos, escrever um livro de memórias.

A “odisseia”, como Vasco d’Orey a caracteriza, começou depois de um telefonema de Vasco Santos, “intrigado” pelas “histórias e lamirés” que ia ouvindo nos almoços anuais de confraternização entre os ex-combatentes. Afinal, pensava, “tratavam-se de casos passados nas suas barbas em Angola”, que “desconhecia” e que “cada vez mais o interessavam”.

Depois de Carlos Santos, juntaram-se “muitas dezenas de camaradas”, que vieram “ajudar na tarefa” de passar para o papel as venturas e desventuras da uma missão encerrada em 1973, ano em que os militares do Batalhão 3838 regressaram à metrópole.

Não foi fácil a tarefa de coletar os testemunhos de quem participou numa guerra, a qual não provocou, mas para a qual foi chamado em defesa da nação. Vasco d’Orey conta que se tratou de uma “caçada” a “homens bons”, distribuídos por “todas as patentes do exército, desde soldados a comandantes”. “Obriguei-me a descobrir o paradeiro e respetivo contacto de cada um dos meus camaradas, coisa que consegui parcialmente”, declarou o autor, que considera a colheita “quanto baste”, uma vez que o trauma de guerra ainda persiste entre muitos dos pares. “Não se sentiram capazes para escrever umas linhas que fossem”.

Vasco d’Orey muniu-se de todos os equipamentos e ferramentas possíveis para chegar o mais longe possível: das novas tecnologias, como a internet e as redes sociais, aos telefones e gravadores de reportagem, o autor conseguiu recolher 107 testemunhos.

“Tive uma ajuda particularmente útil do camarada que, anualmente, organiza a reunião das nossas tropas, o furriel de transmissões António dos Santos Oliveira, que cedeu a relação principal dos nomes, aos quais consegui juntar mais alguns, complementando o ramalhete”, sublinhou.

Dos depoimentos recolhidos, Vasco d’Orey destaca o comum “gigantesco sentido de unidade e entreajuda” e o relato de “um dos momentos mais emocionantes” vividos pelo Batalhão, no qual “foi surpreendido numa emboscada, quando subia em coluna motorizada, de Quicabo para Balacende”. Aconteceu “num dia de aniversário de um dos movimentos da guerrilha (UPA)” e “precisamente na véspera do regresso do Batalhão a Luanda, para voltar à metrópole e passar à disponibilidade”. Memórias boas são, por exemplo, “o maior e melhor passatempo” dos militares: “Ler e reler as notícias que vinham de Portugal”. No reverso da medalha, persistia um teimoso “receio” de “não regressar à metrópole, ou regressando, enfiados num sobretudo de madeira”. “Como por várias vezes ficou demonstrado, a morte era enfrentada de frente”, recorda o autor, que, adverte: “Mas o melhor é mesmo ler o livro”.

A obra foi apresentada em Vila Nova de Famalicão, no Museu da Guerra Colonial, em dezembro do ano passado, e pode agora ser adquirida através dos promotores, Vasco d’Orey (contacto 919507001) ou Carlos Santos ( 917728413).

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