Video▶ Um mosteiro, 20 irmãs, 300 quilos de bolachas

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As irmãs seguem a regra monástica de São Bento e o lema ora et labora (reza e trabalho) é a súmula do seu quotidiano. O Mosteiro de Santa Escolástica, situado em Roriz, concelho de Santo Tirso, abriu portas “em 1937” com “cinco irmãs” vindas de um mosteiro da Bélgica.

A fundação deste Mosteiro surgiu em resposta a um apelo dos monges do Mosteiro de Singeverga, também localizado em Roriz, que “pediram irmãs para os ajudar nas missões em Angola”, contou a irmã Maria do Carmo, prioresa do Mosteiro de Santa Escolástica. A Santa Escolástica é irmã gémea de S. Bento, conhecido como o pai do monaquismo. E foi junto do seu irmão, que Santa Escolástica procurou orientação para iniciar a sua vida consagrada a Deus.

Atualmente, o espaço beneditino é habitado por “20 irmãs”, todas elas portuguesas, sendo que “a mais idosa tem 95 anos e a mais nova tem 59 anos”. A “primeira função” das monjas beneditinas é “a oração de louvor a Deus, pelas maravilhas que cria” e a “pedir-lhe por tudo que às vezes não vai bem na vida”.

“Somos feitas para a oração, para o louvor, para estar com Deus, para levar o mundo a Deus, para rezar por aqueles que não rezam e por quem reza, por nós, pelo mundo e para dar graças a Deus pelas coisas que ele ainda vai fazendo”, referiu, mencionando que lhes cabe “pedir a Deus pela paz e pela harmonia no mundo”.

A irmã Maria do Carmo enumerou “a quantidade de gente que lhes pede a oração” e que depois lhes “telefonam a dizer que estão melhores e a pedir para agradecer a Deus”. “Acho extraordinário pensar que, em todo o mundo, há gente a rezar o que estou a rezar. Rezamos à base dos salmos de louvor a Deus, os salmos com que Jesus rezou também”, declarou.

A prioresa afirmou que esta é “uma maneira de estar no mundo” e que apesar de estarem enclausuradas, “as paredes não as fecham mas abrem-nas para o mundo”.

O dia começa bem cedo. É pelas 6.30 horas que as irmãs despertam e têm a sua primeira oração pelas 7 horas. Meia hora depois, há uma “eucaristia e Laudes (oração de Louvor da manhã)”. Entre as 9 e as 10 horas, as irmãs têm uma oração, que, “no geral é feita com a Bíblia, muitas vezes com as leituras da missa do dia, em que se perguntam a si próprias o que esta leitura lhes diz hoje, o que é que isto as interpela na sua vida de oração ou com as irmãs, na maneira de escutar o mundo ou de interagir com quem aparece”.

Mas a vida monástica também é feita de trabalho, até porque, assegura a irmã Maria do Carmo, as irmãs “têm que viver e nada cai do céu”. Assim, das 10 às 12.30 horas, as irmãs dedicam-se ao trabalho, desde o confecionar as conhecidas bolachas de Santa Escolástica às compotas. Antes do almoço, há “uma oração curtinha”.

Depois da refeição, segue-se um momento de descanso, “até às 15 horas”, onde o silêncio impera. Depois, as irmãs regressam ao trabalho até às 17.30 horas, para depois se reunirem “na capela para mais meia hora de oração e mais meia hora de oração comum”. Depois do jantar e até às 21 horas, há “o recreio”, onde as irmãs estão “todas juntas a trocarem novidades” e a “contarem o que se passou na sua família”.

O dia encerra, pelas 21 horas, com “uma oração (Completas). “A partir daí até ao Laudes, de manhã, é silêncio. Não se dá recados, não se vai ver televisão, é silêncio, para manter o espírito em Deus. Aquilo que recebemos nas Completas, ajuda-nos depois a passar a noite com Deus. E estando com Deus estamos com todo o mundo”, referiu.

Cerca de 300 quilos de bolachas vendidas por mês

Uma das iguarias mais conhecidas de Santo Tirso são as bolachas produzidas no Mosteiro de Santa Escolástica, denominadas Especialidades Claustrais. A prioresa mencionou que as irmãs “começaram por fazer bolos para vender”, mas como “as bolachas têm mais duração” essa foi a aposta que fizeram há cerca de “70 anos”. E hoje, garante, “fazem-se bastantes”, sendo vendidas “cerca de 300 quilos por mês”. A “altura do Natal” é a de maior afluência, sendo que, “a partir de novembro”, “só aceitam por encomenda” e numa “certa altura fecham (as encomendas) porque não conseguem” fazer mais.

A confeção das bolachas tem “uma irmã responsável”, que conta com a ajuda de “duas senhoras que estão a trabalhar a tempo inteiro” e de duas irmãs, “conforme vão podendo”. Para a irmã Maria do Carmo, as bolachas são “boas” devido “à maneira” como são feitas, uma vez que são confecionadas manualmente e com carinho, e “muito disso passa”.

Há cerca de 12 anos, o Mosteiro também começou a produzir para venda compotas, confecionadas “só com as frutas da quinta e açúcar”. Paralelamente, também são vendidos terços feitos por uma irmã.

Um lugar de paz e de silêncio

O acolhimento é outra das vertentes da Ordem Beneditina. Por isso, o Mosteiro de Santa Escolástica dispõe de uma hospedaria com “20 quartos”, destinado às pessoas que procuram um lugar de paz e silêncio, para descansar, refletir e rezar, principalmente numa altura em que se vive em grande stress. Cada quarto tem um nome de um santo e está associada a palavra “pax” (paz), com um símbolo de uma pomba e uma oliveira.

A prioresa, irmã Maria do Carmo, reconhece que as pessoas levam “a vida pesada e de muito stress”, porque são “solicitadas para muitas coisas” e, como “não estão centradas e não têm um fio condutor, depois é difícil conseguir encaixar tudo para a vida ficar unificada”. “O problema do stress é que a vida em vez de estar unificada, está puxada para todos os lados. O dia só tem 24 horas e nós nunca fazemos mais do que aquilo que podemos”, referiu, esclarecendo que com o stress a pessoa “fica em órbita” e, “às vezes, tem necessidade de se recentrar e de descobrir onde está o centro para depois poder partir para fora”.

Quem quiser experienciar o acolhimento, deve apresentar “uma recomendação” escrita pelo “pároco ou de alguém” que as irmãs “conheçam”. Durante o acolhimento, a pessoa tem que “cumprir as horas de refeição” e é ainda “convidada a ir à capela” com as irmãs. “Mas se a pessoa não quer, não quer. Penso que é um desperdício vir até cá e nunca ir à Capela. É como ir a Vidago, comprar a água engarrafada e vir beber para casa. Temos lá a fonte, para que é que a gente vai engarrafar a água? Aquilo que nós temos de melhor para dar é a nossa oração e, portanto, convidamos as pessoas e é pena que não venham. Mas, às vezes, não vêm porque não se sentem suficiente bem para virem e/ou ainda têm dentro muitas barreiras que têm que deitar abaixo e a gente respeita”, esclareceu.

A irmã Maria do Carmo asseverou que tem tido “bastante procura de grupos”, tanto de pessoas como “grupos de paróquias ou seminaristas de Braga”, principalmente “nos fins de semana”. “As pessoas têm muita necessidade para falar, porque no mundo as pessoas não têm tempo para escutar”, ressalvou.

Os passos para se ser irmã beneditina

A prioresa referiu ainda que, “em princípio, no verão”, uma pessoa vai iniciar o processo para fazer parte da comunidade, havendo ainda “mais duas que ainda não sabem se virão”.

Quando a pessoa sente que quer fazer parte desta comunidade beneditina, tem que “passar um tempo na parte do acolhimento”. E se ao fim de um certo tempo continuar com a mesma intenção, “a comunidade reúne-se” e decide a sua continuidade. É então que a pessoa “entra e fica na comunidade, ainda sem o hábito, entre seis meses a dois anos”. E se a pessoa e a comunidade continuar a ter a mesma opinião, tem início o “noviciado”, em que a pessoa “continua a ter uma irmã que a acompanhe e que lhe dê aulas sobre a regra e, dependendo da sua cultura religiosa, sobre a religião, a Sagrada Escritura, maneira de estar”, entre outras.

“Ao fim de dois anos”, se continuar a ser sua vontade e da comunidade, são feitos “os primeiros votos temporários”, com a duração mínima de “três anos”, que podem ser renovados “até aos nove anos”. É então que são feitos “os votos perpétuos”, ficando “comprometida para a vida com a comunidade” e vice-versa.

“Claro que há sempre a hipótese de a pessoa querer ir embora. Mas depois de fazer os votos definitivos, tem que se fazer o pedido de dispensa para Roma”, explicou.

Reportagem realizada em fevereiro de 2017

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