Mark Zuckerberg, o fundador da rede social Facebook, foi ouvido esta semana no Congresso Norte-Americano, a propósito do escândalo que envolveu a sua empresa e a Cambridge Analytica, que, alegadamente, apropriou-se indevidamente dos dados de cerca de 80 milhões de utilizadores, perfilando-os psicologicamente, para influenciar decisões políticas à escala global, como a eleição de Donald Trump e o referendo do Brexit.

Com a cara de cachorrinho do costume, e com as desculpas vazias a que já nos habituou, Zuckerberg fez um mea culpa, sempre resguardado naquilo que tem sido, ao longo dos anos, a missão do Facebook nas palavras do seu fundador: unir o mundo.

Se essa missão é, à partida, nobre na sua origem, uma vez que cada vez mais precisamos de um mundo unido, de um mundo solidário, de um mundo que ponha de parte as suas diferenças a favor do bem comum, a verdade é que, se olharmos à nossa volta, percebemos que o resultado tem sido precisamente o inverso.

Apesar de termos de ter em conta que o Facebook, pela sua dimensão, permite recordar amigos do passado, encontrar familiares que há muito não vemos, bem como permitir um acesso profissional às massas, na perspetiva de querermos publicitar o nosso negócio, o nosso trabalho, a nossa arte, a questão que devemos colocar é: a que custo?

Circula uma frase que define bem a era da internet em que vivemos: se o serviço é de graça, então o produto somos nós. E talvez nenhuma empresa se enquadre tão bem como o Facebook, uma vez que se tornou, ao longo dos anos, numa verdadeira base de dados de tamanho astronómico, que permite aos anunciantes e a quem tenha o poder financeiro para, campanhas de manipulação da opinião pública em massa, sim, mas sobretudo direcionada. Se eu colocar um billboard na estrada, terei um alcance considerável, mas não saberei se atingirei o meu público-alvo. Agora, se eu tiver a oportunidade de aceder a dados pessoais, perfilar esses dados com as variáveis que me forem mais enriquecedoras, e direcionar a minha publicidade e as minhas campanhas de uma forma individualizada em massa, então o meu trabalho será bem-sucedido. Foi exatamente isto que, alegadamente, a Cambdrige Analytica conseguiu.

E apesar da apropriação ilegal dos dados, a verdade é que esses dados são fornecidos pelos seus portadores a empresas mascaradas de redes sociais. E as eternas desculpas de Zuckerberg começam a esgotar-se (não se terão já esgotado?) e o Facebook começa a perder a credibilidade para que nós, utilizadores, possamos confiar na empresa para guardar os nossos dados.

Mas o maior problema seja, talvez, o facto de o utilizador comum passar ao lado destas questões, e ser bombardeado com publicidade, com agendas políticas, sem se aperceber que está a ser influenciado por essas mesmas questões. Sobretudo se não trabalhar a sua consciência civil e crítica e for um alvo fácil para todo o tipo de manipulações. E infelizmente, parece-me que essa situação é cada vez mais comum, porque o Facebook promete unir o mundo mas a verdade é que, quando olho à minha volta, no café, na rua, no comboio, vejo as pessoas com os olhos colados no telemóvel e o mundo a passar-lhes ao lado.

Para terminar, deixo um excerto da conversa entre um Senador e Mark Zuckerberg, para reflexão.

Senador: Estaria confortável em partilhar o nome do hotel onde passou a última noite?

Zuckerberg: Não.

Senador: Estaria confortável em partilha o nome das pessoas com que trocou mensagens na última semana?

Zuckerberg: Não.

Senador: Acho que isto nos leva à questão que importa, a privacidade.

Literariamente, estamos conversados.