Na primeira parte deste conjunto de textos que me propus publicar, escrita numa Terça-feira, dia 2 de Janeiro, para ser publicada no final dessa semana neste jornal, referi que a última edição do Correio da Trofa (CT) era de 7 de Dezembro. Desde então, durante estes dois meses e meio, entre o nº 104 do CT e o dia em que escrevo estas linhas, 20 de Fevereiro, apenas duas edições viram a luz do dia, quando deveriam ter sido cinco. Periodicidade? O que é que isso interessa?
O historial de irregularidades do Correio da Trofa é digno de registo. E este caso da periodicidade não é de perto nem de longe dos mais graves. Não tem comparação com o facto de, tendo sido criado pela máquina eleitoral que levou Sérgio Humberto ao poder, terem os seus antigos proprietários recebido dezenas de milhares de euros por ajuste directo. Pessoas que, tal como algumas outras, foram contratadas pela coligação PSD/CDS-PP para trabalhar a assessoria da sua campanha, para depois serem contemplados com contratos generosos do novo poder político, que ajudaram a eleger, pagos pelos cofres públicos e não pelos do PSD ou do CDS-PP. Pessoas que, findada a campanha eleitoral, pegaram no seu jornal e se mudaram de armas e bagagens para o exato mesmo endereço e local onde até então estava a sede de campanha da coligação Unidos pela Trofa. Pessoas que, depois de todas estas embaraçosas manobras, ainda foram chamadas a prestar serviços à autarquia, pela mão do actual executivo.
Porém, e apesar das várias dezenas de milhares de euros que o actual executivo entregou ao longo dos tempos aos seus amigos do Correio da Trofa (alguns deles extremamente difíceis de explicar mas que podem ser facilmente consultados na plataforma Base), dinheiro que é de todos e não dos partidos e pessoas que governam autoritariamente a Câmara Municipal da Trofa, a irregularidade mais grave, no meu entender, prende-se com o caso de Miguel Ângelo Pinto, o jornalista que, à revelia da lei, exerceu a função de director do Correio da Trofa e de assessor político do PSD Santo Tirso. Reportei este caso à Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), no final de 2016, e a resposta que recebi foi surpreendente, com a ERC a clarificar que o Correio da Trofa estava cancelado desde 13 de Julho de 2016, isto apesar de ter continuado a chegar ás bancas, como se nada fosse.
Nada disto impediu o executivo Sérgio Humberto de continuar a manter boas relações com um jornal que, no fim de contas, é da família. Entre publicidade e entrevistas, com edições que parecem sair por encomenda e o advento de um cronista que nunca o foi e que ali andava por encomenda e a soldo de indivíduos sem carácter ou espinha dorsal, o Correio da Trofa tem servido os interesses publicitários e propagandísticos do regime vigente no nosso concelho. Um jornal criado por políticos, que posteriormente o financiaram com dinheiro retirado dos cofres públicos, que não cumpre as mais elementares regras legais a que está sujeito e que, não raras vezes, é usado para ataques pessoais contra aqueles que ousam contestar o poder absoluto do executivo PSD/CDS-PP, da forma mais cobarde e ordinária, não é um jornal. É, quanto muito, um órgão de comunicação de um partido. Ou, neste caso, de uma coligação.
É interessante ler estes factos à luz dos recentes atropelos deste executivo à liberdade de imprensa e de expressão. Do caso do Muro até à perseguição política ao Clube Slotcar da Trofa, falamos do mesmo executivo que tem Sérgio Humberto à cabeça, o tal que, em plena Assembleia Municipal de 27 de Fevereiro de 2015, apelidou de mentirosos todos os colaboradores e conteúdos deste jornal, afirmando, com toda a prepotência e arrogância do mundo, que a única verdade que lá estava era a data. Irónico que o jornal afecto ao senhor presidente tenha já conseguido chegar ao ponto em que até a periodicidade é uma mentira. Mas o que é que isso importa ou interessa, num país onde os políticos fazem o que querem e bem lhes apetece? Porque não haveria o senhor Sérgio Humberto de usar recursos públicos para se promover, se a maioria não está nem aí?