Enfermeira do Hospital de S. João: “Têm surgido situações com alguma gravidade, mesmo nos mais jovens”

Não são heróis hoje e amanhã. Já o eram e logo que o País precisou, colocaram-se na frente da batalha, prontos para defender a nação, muitas vezes sem a “armadura” adequada para, também eles, estarem seguros.

Os profissionais de saúde têm revelado um sentido de compromisso e profissionalismo que deve servir de exemplo daqui em diante. O JA esteve à conversa com Ana Sabrina Sousa, uma das enfermeiras que, nesta “guerra”, tem dado o corpo “às balas” no serviço de cuidados intensivos das infecciosas do Hospital de S. João, no Porto.

Ao longo da conversa que tivemos, na segunda-feira, e quando ainda não era oficializada a primeira morte por Covid-19 no País, a enfermeira afirmou que a situação tem piorado de dia para dia, com cada vez mais doentes, de todas as idades, a necessitarem de cuidados intensivos. E deixou vários apelos, para que a população se resguarde e saia o menos possível de casa, principalmente os mais velhos.

O Notícias da Trofa (NT): Como tem sido o dia a dia no tratamento dos doentes?
Ana Sabrina Sousa (ASS):
Até então, a maior parte dos doentes têm ido para o internamento e não têm sido situações graves. Mas ao longo desta semana, tem sido cada vez mais o número de situações em que os doentes têm agravado de uma forma exponencial, até porque não tem sido uma clínica semelhante a outras situações de gripe ou pneumonia que já temos verificado, em que as pessoas sentem os sintomas cada vez mais a agravar, principalmente na função respiratória. Neste caso, tem sido uma clínica diferente em que as pessoas têm agravado a nível analítico na sua função respiratória, mas a clínica não é tão clara, por exemplo em outras situações de infeções respiratórias.

NT: Ou seja, os sintomas vão agravando ao longo do tempo?
ASS:
Sim, as pessoas são internadas com alguns sintomas, que vão agravando ao longo do tempo. O que se tem verificado é que as pessoas recorrem ao serviço de urgência quando, na verdade, apresentam sintomas muito ligeiros e estão a entupir os serviços de urgência, só para saberem se têm a doença ou não. Ao entupir as urgências, ficam imensas horas à espera do resultados e também condicionam os meios existentes nos locais. O apelo que tem sido feito é para as pessoas que têm sintomas ligeiros, mesmo que suspeitem terem a doença, ficarem em casa, porque não vai ser feito nada no hospital que as pessoas não pudessem fazer em casa. Dessa forma, está a resguardar-se a si e aos outros. E depois, contactarem a linha SNS24 quando começarem a sentir que estão a agravar a sua doença, no caso de a febre não baixar, sentirem dores no corpo que não passa com a medicação, se tiverem problemas respiratórios. É nesse tipo de situações que devem contactar. E antes de contactar a linha, até porque estão muitas vezes está entupida, devem contactar profissionais de saúde conhecidos, o enfermeiro ou médico de família.

NT: Há alguma estimativa de quanto tempo os sintomas se podem agravar?
ASS:
Aquilo que se estima é que na maior parte das pessoas são duas semanas o tempo de duração da doença, até porque já tivemos situações de cura cá em Portugal. A partir do momento em que a doença começa a agravar-se é mais complicado, porque depende da situação de saúde de cada pessoa. Agrava mais em pessoas que já tenham outras doenças, em pessoas mais debilitadas, embora possa acontecer em pessoas mais jovens e já temos situações dessas. Portanto, é difícil prever, daí a nossa preocupação.

NT: Portanto, a doença não segue um padrão?
ASS:
Exato. A doença não segue um padrão, até porque é muito recente e é difícil estabelecer um padrão, neste momento. É tudo uma incógnita muito grande. As informações que são transmitidas aos profissionais também, mesmo em termos de medidas de prevenção e de contenção também são contraditórias. Enquanto vemos relatos na China e na Itália, nos equipamentos de proteção que são utilizados para as precauções máximas e aqui pedem-nos para utilizar as precauções básicas, o que também é contraditório. Há profissionais que se estão a recusar seguir essas recomendações, porque também estão a pensar na precaução e em prevenir as suas famílias.

NT: Como é que tem estado a saúde física e mental dos profissionais de saúde, numa altura em que estamos longe do pico da propagação?
ASS:
Neste momento ainda estamos no início, mas só o facto de estarmos a reajustar a resposta dos serviços às necessidades crescentes que vão surgindo e também pelo facto desta doença exigir precauções muito acima daquilo a que nós estamos habituados a dar resposta, está-se a fazer sentir cada vez mais o desgaste físico e psicológico dos profissionais, até porque toda esta gestão é cada vez mais difícil de fazer face às necessidades. No entanto, acho que estamos todos unidos e motivados para dar resposta às necessidades e a fazer o possível para que isso aconteça.

NT: Que conselhos daria a uma pessoa que ainda é cética relativamente a este problema?
ASS:
Aconselho a verem e a acreditarem naquilo que estão a ver nas notícias, porque é realmente preocupante e não pensem que estão imunes ou que vamos ser diferentes da China ou de Itália. É verdade que podemos antecipar, porque já vemos o que aconteceu lá e devemos aprender com isso e tentar minimizar o mais possível, mas não pensem que não vai chegar aqui, porque vai. Portanto, temos de fazer todos os possíveis e, principalmente, seguir as recomendações que são enviadas pelos nossos colegas italianos para tentar minimizar esta situação e proteger principalmente os mais vulneráveis, ao máximo. Para não saírem de casa, principalmente os mais idosos.

NT: Os doentes que estão nos cuidados intensivos estão entre que faixas etárias?
ASS:
Desde os 17 até aos 82 anos, neste momento. Inicialmente, a informação que era veiculada era que a taxa de mortalidade seria de 0,1 ou 0,2 por cento, sendo que seria mais elevada nos mais idosos, a verdade é que têm surgido situações com alguma gravidade, mesmo nos mais jovens. Ainda estamos numa fase inicial, por isso é previsível que aconteça alguma situação de maior gravidade em todas as faixas etárias.

NT: E as mortes vão acontecer…
ASS:
Eu era muito cética no início, confesso, até porque os dados que eram transmitidos era que este vírus não seria de grande gravidade, face às taxas que foram apresentadas. Na verdade, estamos a ver que não, que, realmente, todas as preocupações que têm sido lançadas são perfeitamente legítimas e têm que ser implementadas mais medidas restritivas, porque as que estão neste momento não são eficientes. Na verdade, saímos à rua e é como se não estivesse a acontecer este cenário, é preocupante.

NT: É apologista de que se devia decretar quarentena obrigatória?
ASS:
Sim, o quanto antes, porque se estivermos à espera de atingir o pico da infeção, aí não vai valer de nada a quarentena obrigatória nem fechar as fronteiras, neste momento é o que tem de se fazer.

NT: E pessoalmente, Ana, como tem sido o seu trabalho? Desgastante, suponho.
ASS:
Esta semana vai ser ainda pior, porque fazer noite e amanhã vou trabalhar todo o dia. Entretanto tenho outro descanso e depois vou trabalhar outra vez todo o dia. Os próximos tempos não se afiguram fáceis porque, entretanto, temos colegas que já estão em casa de quarentena preventiva, porque apresentam sintomas apesar de não apresentarem nenhum diagnóstico positivo da Covid, outros têm filhos e têm de ficar em casa com eles, porque não podem ir à escola. Cada vez mais vai faltar pessoal e, por outro lado, a necessidade é maior, porque estes doentes necessitam de maiores cuidados que não outros doentes na mesma situação clínica. Precisamos de um reforço na equipa, vamos precisar de abrir mais camas de cuidados intensivos, portanto a equipa vai ter ser ainda mais reforçada. Por isso, vai haver a necessidade de fazer ainda mais turnos. Gostaria de agradecer alguns donativos que têm sido feitos. Estão a ser oferecidas refeições ao almoço e ao jantar por um restaurante e várias empresas de uma forma anónima. Queria agradecer também pelos apartamentos que têm sido cedidos no Porto para os profissionais ficarem de quarentena e gostaria de apelar também que isso continuasse a ser feito, porque há profissionais que residem ainda bastante longe do hospital, portanto seria bom terem um lugar onde pudessem descansar nos próximos tempos, próximo do hospital onde trabalham.

NT: A Ana resguardou-se da família ou redobrou cuidados?
ASS:
Tento proteger-me no hospital, tomar todas as precauções, com medidas preventivas também, ao nível de lavagem das mãos e outro tipo de cuidados. Neste momento não saio do hospital sem tomar banho, mudar várias vezes de equipamento e tomar todas as precauções. E é desta forma que tento resguardar a família, porque não posso fazer de outra forma. Sempre com receio.

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