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Cuidar de quem cuida

Cuidar de quem cuida

Quem cuida do cuidador? Foi a partir desta interrogação que nasceu a Dar de Nós – Associação Portuguesa de Cuidadores Informais, vocacionada para divulgar, apoiar e promover a ação daqueles que, sem qualquer remuneração, prestam cuidados e assistência a outros. Uma das vitórias mais recentes da associação foi a aprovação, na Assembleia da República, do diploma que reconhece, legalmente, o papel do cuidador informal.

No início de julho, a Assembleia da República aprovou a criação do Estatuto do Cuidador Informal. Este diploma, que resultou de um texto conjunto tendo em conta as propostas do Governo e de vários partidos da esquerda à direita, constituiu uma vitória para aqueles que, sem qualquer remuneração, prestam cuidados e assistência a outros, e, naturalmente, para a Dar de Nós – Associação Portuguesa de Cuidadores Informais, que nasceu exatamente para dar a estas pessoas o devido reconhecimento social.

Fundada em abril de 2017, na freguesia de Lamelas, no concelho de Santo Tirso, esta associação sem fins lucrativos resultou do projeto “Unidos no Cuidar”, implementado pelo Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Santo Tirso/Trofa, através da Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC). Através de um estudo, identificaram-se cerca de uma centena de cuidadores na área de atuação da UCC e identificaram-se as dificuldades sentidas. Através dessa perceção, os profissionais de saúde traçaram como objetivos centrais a diminuição da sobrecarga dos cuidadores informais de idosos dependentes no domicílio e o aumento, no seio da comunidade, da literacia relacionada com a ação desenvolvida pelo cuidador.

Atualmente a atuar de forma autónoma, a Dar de Nós, presidida por Alice Barros – que sucedeu recentemente a Sandra Costa -, alargou a área de intervenção a todo um território nacional afetado pelo chamado “inverno demográfico”, em que cada vez há mais idosos e elevados níveis de dependência, que fazem emergir novas necessidades na saúde.

Alinhada com a conclusão de estudos científicos que dão conta que o domicílio é o melhor local para o idoso envelhecer e que, por isso, o cuidador informal tem tido uma crescente relevância, a associação enfrentou o desconhecimento e a falta de reconhecimento e assumiu como missão a divulgação, o apoio e a promoção do papel do cuidador, que, pelas suas características, muito contribui para a sustentabilidade do sistema de saúde, num país em que se estima existirem cerca de 240 mil pessoas cuidadas em situação de dependência. À partida, podemos constatar que, ao promover a manutenção da saúde do idoso no contexto familiar, o cuidador informal reduz, substancialmente, a necessidade de internamento.

Mas o reverso da medalha é um preço elevado a pagar por estas pessoas: sobrecarga física e emocional, falta de suporte/apoio legal e familiar, dificuldade em conciliarem a condição de cuidadores com a atividade profissional e, principalmente, falta de tempo para cuidarem de si próprios. Todos estes efeitos refletem-se na vida pessoal e familiar e foram, recentemente, reconhecidos com a criação do novo Estatuto do Cuidador Informal, que define, entre outros aspetos, um subsídio de apoio aos cuidadores, o descanso a que têm direito e medidas específicas relativamente à sua carreira contributiva, premissas defendidas pela Dar de Nós.

As atividades da Dar de Nós

Na realidade, desde que foi criada que a associação considerou premente informar a comunidade para as necessidades destes indivíduos. Tomando como ponto de partida as dificuldades sentidas pelos cuidadores informais, pela falta de recursos para os mesmos, da necessidade de conhecimentos que lhes permitam prestar cuidados com qualidade e de acordo com a especificidade da pessoa dependente necessita e pela perceção de sobrecarga, a associação Dar de Nós organiza, sem qualquer fim lucrativo, atividades lúdico-pedagógicas, das quais se destacam os ateliês e workshops, com sessões que já tiveram como temas a culinária saudável, a musicoterapia, a aromaterapia, o ioga do riso, a meditação e a técnica de respiração e estratégias para cuidar da pessoa com demência. Os ateliês são, normalmente, promovidos no Atelier do Sabor, em Santo Tirso, e no Centro Social Paroquial de S. Martinho de Bougado, na Trofa.

A associação organiza ainda exposições, colóquios, conferências, seminários e tertúlias e produz e distribui material informativo. Este sábado, promoveu também uma caminhada e uma aula de pilates, permitindo um momento de fruição e convívio entre os cuidadores e familiares.

A Dar de Nós dispõe de algumas ferramentas que podem ser utilizadas por quem cuida para melhorar o apoio ao dependente e a própria qualidade de vida, mas há outros caminhos que podem ser trilhados, como o pedido de aconselhamento médico, através das unidades de saúde, que poderão ter gabinetes de apoio especialmente vocacionados para esta temática.

Por outro lado, é função dos profissionais de saúde estarem alerta para intervirem, avaliando a situação e as dificuldades sentidas, as capacidades do cuidador informal, bem como o seu estado de saúde, para o munir e dotar de estratégias que facilitem um cuidar bem-sucedido.
O Programa Nacional para a Saúde, Literacia e Autocuidados, criado por despacho governamental em 2016, tem como projeto a desenvolver o “Envelhecimento, autocuidados e cuidadores informais”, mas pouco tem sido feito nesse âmbito.

Perfil do cuidador em Portugal

Tradicionalmente, em Portugal, o cuidado à pessoa idosa dependente é assumido, em primeiro lugar, pela família, a que é vista como a primeira linha de cuidados, sobretudo em zonas rurais.
Apesar do papel de cuidador informal ser, normalmente, assumido por um familiar, pode igualmente ser um amigo ou vizinho que assume a responsabilidade de prestar cuidados à pessoa dependente, no seu ambiente familiar, sem qualquer remuneração. Também deve-se considerar o importante papel do cuidador informal de crianças e jovens dependentes, que dedica toda a sua atividade ao ato de cuidar.
Na maioria das situações, os cuidadores informais são mulheres, solteiras, domésticas ou desempregadas e que coabitam com a pessoa dependente.

Apoio ao cuidador informal
Linha gratuita de apoio ao cuidador (dias úteis das 10 às 17 horas): 800 242 252
Dar de Nós – Associação Portuguesa de Cuidadores Informais: Telefone 252 809 150 Email geral@dar-de-nos-associacao.pt e site www.dar-de-nos-associacao.pt

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